espelho

 

 

Um nevoeiro espesso a tudo observava: As massas a acotovelarem-se pela avenida.

O momento era propício. E sonhado. O orador aspirara pela conjunção de todas aquelas variáveis que, agora, as caprichosas agulhas da história costuravam diante de si.

O povo ali, arrebatado em emoção profunda, finalmente dera-se conta das incontáveis traições da escória comunista. Dos roubos e corrupções em série dos socialistas e as mentiras e incontáveis enganos de todos os esquerdistas.

O ar pulsava vivo em palmas, gritos e refrões, entoados em coro pela multidão. A história clamava pelo “Líder”. Milhares de horas em estudos de discursos e estratégias. Anos de preparo. Chegara a hora. Ele sobe no canteiro central, o povo apinha-se a seu redor. Todos esperam por suas palavras. Seu comando.

Na distância um outro, todavia, também levanta-se a discursar. – Maldito! A inveja o mate! Esperou eu levantar-me para concorrer! Então se pôs a discursar, com redobrado ânimo, copiado que era pelo concorrente ao longe.

O povo que era êxtase, agora via, admirado, a sobrenatural força daquele orador, a competir por horas em discurso sempre renovado e vívido. Mas ele olha por sobre o ombro e – Bastardo! Quer tomar-me os seguidores! O rival ainda estava ao longe. Mais cansado que antes, mas não menos combativo. É então que a ideia lhe vem à mente.

– Irmãos de fé! Não há mais espaço para aqueles que seguem a dois senhores! Não há espaço àqueles que pensam diferentemente! Somente vencerá a VERDADEIRA DIREITA! – e, mal terminara a frase, a turbamulta caiu no delírio.

– Sim! Por isso aqueles que não são seguidores de “Nosso Senhor Jesus Cristo”, que saiam! Vocês não são “Direita”! E mal terminara a frase, uma ruidosa multidão de fiéis dos cultos afro-brasileiros é tocada para fora, com milhares de Cristãos a aplicar-lhes a Bíblia. Umas mais leves, outras mais pesadas. Enquanto os “infiéis” urravam e corriam.

A multidão esvaziara-se, mas ele continuava, junto com seu competidor ao longe, em busca da “Direita pura”. – E digo mais! Cristã mesma, somente a evangélica! Pois o Papa de hoje nada mais representa se não o comunismo! Uma confusão imensa tomou as ruas. E, em que pese terem vencido a batalha campal que se seguira (pois suas Bíblias eram mais pesadas), saíram os apostólicos romanos cabisbaixos, eis que a Direita não mais os queria.

Os que restaram, em muito menor número, eram puro entusiasmo. Êxtase. Entrega. – Mas, o “desgraçado” ao longe também aplicara seus expurgos, e via-se que a multidão ali, também menor, era ainda mais devoção. Era necessário radicalizar.

Fechou os olhos, ajoelhou-se, e com toda a força dos pulmões, pôs-se a doutrinar:

– A Verdadeira Direita… é monárquica! E um ruído gigantesco de passos se seguiu, mas ele continuou, olhos fechados, a determinar: – É heterossexual! – É pura! É pia! É santa! É virgem! É… É… É… E após uma quantidade enorme de minutos e qualificativos, seguiu-se um silêncio imenso que surgiu com o cessar de sua voz.

Abriu os olhos. E já não havia mais uma alma ali.

 

Ao muito longe ouviam-se os passos perdidos das multidões em orfandade. Sem líder, sem “Direita”, sem rumo ou fé.

As brumas dissiparam-se.

A distância revela, ao longe, um velho espelho. Quebrado. Jogado em outro canteiro central, a refletir a imagem atônita do líder que não foi e jamais será.

 

 

Iran P. Moreira Necho

 


 

1 – Exposição de motivos: trata-se de uma crítica que resolvi fazer sobre a fragmentação da Direita no Brasil, e a falta de visão de seus “líderes”. O que me trouxe o “estalo” de escrever, contudo, foi um “post” que vi numa rede social, onde havia uma espécie de cartaz, com uma lista imensa de “atributos” da “verdadeira direita”, afirmando, ao final, que todo o resto era “comunista”.

A atitude é tão míope que chego a pensar ser mais provável a infiltração de socialistas, do que crer em alguém tão estúpido. Pois é como, em meio ao fervor da guerra, recusar soldados por conta da cor de suas meias…


 

2- Textos “mutantes”: Nunca imprima meus textos! Estou sempre alterando-os. Comparo o escrever com o esculpir, em que a cada cinzelada extraio um monte de besteiras e imperfeições. Tudo para concluir, depois, que a obra final deveria ter sido outra. Então, não raras vezes, mal “termino” o texto e o publico, para logo em seguida refazê-lo umas dezenas de vezes, no mesmo dia.


 

3- Sobre “estilo”: “Estilo”, “vocabulário”, “forma”. Não tente descrever-me por eles. Os tomo por “idiomas” que moldo conforme o público visado. Meros “continentes” descartáveis. Visto que, para mim, o que importa é o conteúdo. Então que não se fale de mim como pessoa de “várias personalidades”, mas de “várias línguas”. O “eu” nunca está ao alcance dos olhos.


 

 

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